EDITORIAL

João Micael

Director

QUAL O FUTURO DA LUSOFONIA?

Existe um Espaço Lusófono no Mundo, de influência política, económica e cultural ao nível global, que conta com mais de 260 milhões de Pessoas. Estas partilham há meio milénio um Passado e, sobretudo, uma língua comum - o Português.

Por isto são surpreendentes, mesmo abstrusas, as últimas notícias sobre alguns Estados membros da CPLP, serem também membros, e outros aspirarem a tal, à OIF - Organização Internacional da Francofonia.

Esta organização congrega países em que a língua Francesa é oficial ou tem um estatuto privilegiado e também se refere à comunidade de falantes do Francês e engloba todas as acções da sua promoção e dos valores democráticos que ele veicula. Assim, torna-se pertinente questionar a própria existência da CPLP - Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, organização formada por países lusófonos, cujo objectivo é o aprofundamento da amizade mútua e da cooperação entre os seus membros, comemora, no dia 5 de Maio, o Dia da Cultura Lusófona pelo Mundo, e é financiada por meio do orçamento de funcionamento do Secretariado Executivo, custeado por contribuições obrigatórias dos Estados-membros, como pelo Fundo Especial, alimentado por contribuições voluntárias e destinado a custear programas de cooperação, projectos e acções pontuais.

Afinal, qual a finalidade da CPLP?

O que tem feito efectivamente para cumprir os seus propósitos?

Qual é a percepção dos Lusófonos e de outras Pessoas de outras nacionalidades sobre a organização?

Adivinha-se uma readequação dos seus programas e políticas, ou ao seu lento declínio?

Após a sua tomada de posse, o Chefe de Estado Angolano inicia um périplo de visitas oficiais em África, e quando se deslocou, pela primeira vez, ao continente Europeu, a sua primeira visita oficial não é a Portugal, onde está sediada a CPLP. Pelo contrário, transmitindo uma inequívoca mensagem, com laivos agressivo-passivos, visita a França, também ela uma nação com passado colonialista. Aí, afrontando a Lusofonia, apresenta formalmente a candidatura de adesão de Angola à OIF - Organização Internacional da Francofonia como Estado Membro de pleno direito e não associado ou observador.

Para acentuar esta acção, dá uma entrevista à Euronews, onde empenhadamente anuncia que irá mais além. Afinal, Angola irá solicitar, também, a adesão à Commonwealth. As razões apontadas são, no mínimo risíveis. Aponta Moçambique "ali encravado entre países anglófonos". Defende que, também Angola "está cercada (uma triste escolha na palavra), não por países lusófonos, mas por países francófonos e anglófonos".

E, avisa: "Portanto, não se admirem que estejamos a pedir agora a adesão à Commonwealth".

Efectivamente, cumprindo a sua agenda de visitas oficiais na Europa, a sua próxima paragem é o Reino Unido, onde junta as palavras à as acções.

No entanto, o governo Britânico, consciente da sua aliança com Portugal, a mais antiga da Europa, firmada com o Tratado de Windsor, em 1386, deu uma lição de Diplomacia e Relações Internacionais ao Chefe de Estado Angolano ao solicitar, por seu turno, a adesão à CPLP na qualidade de Observador Associado. Este, foi um gesto bastante assertivo, porquanto durante as duas décadas de existência da CPLP, o Reino Unido jamais havia demonstrado interesse em tal adesão. Agora, num acto de cortesia entre Estados aliados, e sobretudo por simples inteligência política, demonstrou que não pretendia constranger o seu aliado centenário.

Assim, a Lusofonia, perante tais acontecimentos, baseados em tão absurdas justificações, corre o grave risco de não poder cumprir um destino que se antevia promissor no panorama global - atente-se ao número crescente de Estados Observadores Associados -, e com reconhecimento da sua zona geo-estratégica de influência política, económica e cultural, não só devido à existência dos Países de Língua oficial Portuguesa, mas, também, às inúmeras Comunidades Lusófonas disseminadas pelo planeta e com um historial de extraordinário sucesso na sua integração social.

As razões subliminares a este tipo de posturas devem-se ainda, incompreensivelmente, à existência de uma certa classe de governantes lusófonos sem visão, imbuídos de um infeliz complexo histórico de inferioridade, centrados numa perspectiva falseada da História comum com Portugal, ignorando os restantes países lusófonos.

A Esfera Lusófona ou a Lusofonia é, aparentemente, um sonho de apenas alguns visionários... Os outros, abandonando-a, ao seguir políticas e projectos que a contrariam, não a respeitam, nem a merecem!

Cabe, portanto, às Sociedades Civis Lusófonas dar continuidade à voz à sua Identidade Histórica, Cultural e Linguística e contrariar todas as nefastas e ignaras decisões e acções que visam apagar a nossa Memória Colectiva.

Cabe às Novas Gerações Lusófonas de Angola, Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste e das Comunidades dos Estados Unidos e Canadá; na América do Sul, na Argentina, Chile, Colômbia, Paraguai, Peru, Uruguai, Venezuela, na Europa na Alemanha, França, Luxemburgo, na Suíça; na África do Sul, Namíbia, na Austrália e pelo Mundo fora, falar, escrever, cantar e declamar sempre em Português - língua com indelével reputação literária e artística mundial.

Com Portugal e com os Lusófonos com visão, a Língua Portuguesa será elevada ao patamar de Património da Humanidade.